Chikungunya: uma história recente

A observação clínica da febre chikungunya é descrita desde o século XIX com sintomatologia diferente da dengue. Após a fase aguda da doença os pacientes frequentemente apresentavam dores crônicas nas articulações. O vírus chikungunia (CHIKV) foi isolado no leste da África somente em 1953, a partir do soro de um paciente durante um surto de dengue na localidade denominada de Tanganyika, atual Tanzânia. O nome chikungunya deriva do dialeto makonde, falado à época na região do surto, e significa “torna-se contorcido”, indo ao encontro com as manifestações clínicas, principalmente as intensas e prolongadas dores articulares.

Nas décadas seguintes o vírus propagou-se para outros países africanos, bem como para o sudeste asiático e sul da Europa, causando surtos. Somente na Indonésia 25 surtos foram descritos entre os anos de 1999 e 2005. Em 2004 uma grande epidemia ocorreu na costa oriental do continente africano, no Quênia, espalhando-se rapidamente para as ilhas do oceano Índico. Estima-se que de 2004 a 2006 cerca de 500 mil casos tenham ocorrido.

Nas áreas rurais da África o vírus tornou-se endêmico pela sustentação no ciclo selvático que envolve os seus vetores e mamíferos reservatórios (mosquitos do gênero Aedes spp. e macacos). A manutenção nos reservatórios contribuiu para a recorrência de surtos isolados e periódicos no interior da África. As grandes epidemias ocorreram com a cepa de origem asiática, majoritariamente em áreas urbanas. A alta densidade populacional conjugada à persistente e expressiva população do vetor contribuiu para sustentação do ciclo urbano da doença. Os primeiros surtos no sudeste asiático foram documentados em 1960 em Bagkok e Tailândia e em 1963 na Índia. A Índia possui elevada morbidade, tendo ocorrido em 1965 uma epidemia com mais de 300 mil infectados, sendo as crianças e idosos os grupos com a pior progressão clínica, incluindo manifestações hemorrágicas e óbitos.

Nas décadas de 1980 e 1990 surtos esporádicos e com baixa taxa de morbidade foram ocorrendo nos países do sudeste asiático, incluindo Filipinas, Java, Timor Leste, Laos, Sumatra, Mianmar, Malásia e Sri Lanka. Em 2005 a Índia registrou a maior epidemia de chikungunya da história com mais de 1.3 milhão de pessoas infectadas, tendo perdurado até 2010.

Em 2013, a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) emitiu um alerta epidemiológico, comunicando os primeiros casos de transmissão autóctone de CHIK no continente americano. Em 2015 o vírus já havia disseminado para 33 países da América com mais de 1 milhão de casos e 71 mortes, consolidando-se como um agravo na saúde pública. Os fatores ambientais e sociais atrelados a característica evolutiva cosmopolita dos mosquitos do gênero Aedes spp. contribuíram fortemente para a rápida disseminação do CHIK nas Américas.

No Brasil, a primeira notificação ocorreu em 2010 por casos importados da Índia e Indonésia. Os pacientes residiam nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. O grande número de indivíduos susceptíveis combinada à população de vetores competentes e o intenso fluxo de viajantes das regiões endêmicas, contribuiu para o avanço imediato da epidemia de chikungunya em território nacional.

Em setembro de 2014 foi detectado o primeiro caso autóctone de chikungunya no Brasil, na região do Oiapoque no estado do Amapá, extremo norte do país. No mesmo mês, outros casos foram notificados no estado da Bahia. Até o mês de outubro do mesmo ano 682 casos haviam sido notificados em todo o Brasil (Nunes et al, 2015). Análises genéticas revelaram que a linhagem asiática do CKIV circula na região norte do país. Entretanto, amostras da Bahia revelaram pela primeira vez a circulação de uma linhagem originária da Angola.

Segundo o boletim epidemiológico disponibilizado pelo Ministério da Saúde, em 2016 haviam sido registrados 216.102 casos suspeitos da febre chikungunya (taxa de incidência de 105,7 casos/100 mil hab.), distribuídos em 2.248 municípios. Foram confirmados 102.638 casos e 91 óbitos.

A partir da introdução de novos arbovirus em território nacional a resposta dos órgãos competentes deve se focar em medidas de contenção dos vetores, reduzindo efetivamente a densidade vetorial e infestação de vetores infectados, a fim de cessar a transmissão nas áreas de ocorrência.

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